Luiz Carlos Bordoni
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estuda liberar R$17 bilhões do FGTS para ajudar trabalhadores endividados. Na proposta, cerca de R$10 bilhões seriam destinados à quitação de dívidas, principalmente do cartão de crédito, enquanto outros R$7 bilhões atenderiam aproximadamente 10 milhões de brasileiros que tiveram recursos bloqueados no saque-aniversário. Na lógica oficial, trata-se de aliviar o bolso e reaquecer a economia.
Os números do governo são grandes. Mas os da realidade são maiores.
Hoje, o Brasil tem 81,7 milhões de inadimplentes — quase metade da população adulta. São mais de 330 milhões de dívidas em aberto, em uma sequência de 14 meses consecutivos de alta. Ou seja: para cada real liberado agora, existe uma montanha de débitos já acumulada, pressionando famílias inteiras.
O perfil desse endividamento também chama atenção. A maior parte está na faixa dos 41 aos 60 anos (35,6%), seguida por adultos entre 26 e 40 anos (33,5%). Não se trata apenas de jovens desorganizados financeiramente. É o trabalhador no auge da vida produtiva, com renda comprometida e pouca margem de manobra.
Enquanto isso, a engrenagem da renegociação gira. Só em janeiro, foram concedidos R$12,1 bilhões em descontos, com acordos médios de R$777. Há mais de 620 milhões de ofertas disponíveis, somando cerca de R$1 trilhão em possibilidades de quitação. Números que mostram esforço — mas também revelam o tamanho do problema.
No fim, o país vive um paradoxo: libera bilhões para aliviar dívidas, enquanto milhões continuam afundados nelas. O desafio não é apenas socorrer o presente — é evitar que o futuro repita o mesmo ciclo.
Porque, no Brasil de hoje, a conta não é só financeira. Ela é estrutural.