Tragédia em Catalão expõe Goiás: 1 UTI para cada 5,3 mil crianças

UTI pediátrica: 120 leitos para 650 mil crianças de 0 a 6 anos (Reprodução)

A morte de uma criança de dois anos após esperar horas por uma vaga em UTI pediátrica não é um fato isolado. É, na verdade, o sintoma mais visível de um problema estrutural que atravessa Catalão e todo o estado de Goiás.
Hoje, Catalão não possui leitos de UTI pediátrica — apenas neonatal, voltada a recém-nascidos. Na prática, isso significa que qualquer criança acima desse perfil, em estado grave, depende exclusivamente da regulação estadual e da disponibilidade de vagas em outras cidades, principalmente em Goiânia. E é justamente aí que o sistema começa a revelar seus limites.
Goiás tem uma população superior a 7 milhões de habitantes. Desse total, cerca de 658 mil são crianças de 0 a 6 anos, o equivalente a 9,33% da população. Para atender esse universo, o estado conta com aproximadamente 123 leitos de UTI pediátrica.
A conta é simples — e preocupante. São cerca de um leito para cada 5,3 mil crianças.
Mais grave ainda é a taxa de ocupação. Em março de 2026, os dados indicam que entre 80% e 86% desses leitos estavam ocupados, chegando a 106 das 123 vagas já preenchidas. Na prática, o sistema opera próximo do limite — e qualquer aumento na demanda, como nos períodos de doenças respiratórias, pode gerar colapso.
A situação se repete em outros níveis de atendimento. A enfermaria pediátrica conta com 252 leitos, dos quais 195 estavam ocupados. Já a UTI neonatal possui cerca de 67 leitos, com taxa de ocupação próxima de 90%. Ou seja: toda a rede trabalha sob pressão constante.
Os principais pontos de referência estão concentrados em Goiânia, o que obriga cidades como Catalão a depender integralmente da regulação e do transporte de pacientes. E é nesse intervalo — entre o diagnóstico e a vaga — que mora o risco. Quando a vaga demora, o sistema não apenas se sobrecarrega. Ele falha.
A tragédia recente em Catalão escancarou essa realidade. Não se trata apenas de discutir atendimento, transporte ou protocolo. Trata-se de reconhecer que há um descompasso evidente entre a demanda e a estrutura disponível. A pergunta que fica não é apenas o que aconteceu. É quantas vezes ainda isso pode acontecer.
Porque, enquanto houver mais crianças do que leitos — e mais urgência do que capacidade — cada caso grave continuará sendo uma corrida contra o tempo. Uma corrida contra a morte.

Related posts

Caiado reage a Kassab: a luta só está começando

Câncer afasta Luiz Roberto da Globo

Concurso da saúde: 18 mil candidatos invadirão a cidade