Luiz Carlos Bordoni
A política produz fenômenos curiosos. Entre eles, a incapacidade de algumas pessoas conviverem com a verdade quando ela não lhes agrada.
Conheço Adib Elias há muitos anos. Trabalhei ao seu lado, participei de campanhas, acompanhei vitórias, sonhos e frustrações. Nossa relação profissional terminou quando terminou seu mandato. A amizade, como acontece na vida, enfrentou divergências. Algumas profundas. Nem por isso me autorizo a apagar a história, nem a negar os fatos.
E um fato é inegável: Adib Elias é uma das maiores lideranças políticas que Catalão já produziu. Sua marca está espalhada pela cidade, em obras, projetos e realizações que o tempo haverá de registrar com justiça.
Entre elas está o Hospital Regional. Vivi de perto aquele sonho. O projeto original não era apenas erguer um prédio. Era entregar um hospital completo, funcionando, atendendo a população de Catalão e de toda a região. Havia entendimentos, compromissos e expectativas nesse sentido.
Por razões que jamais foram suficientemente esclarecidas, esse caminho foi interrompido. O Estado afastou-se do projeto. Restou a estrutura física, mas faltavam os recursos necessários para transformá-la em hospital. Foi um momento doloroso. Vi a decepção de quem acreditava estar realizando uma das maiores obras de sua vida pública.
Felizmente, a história não terminou ali. A federalização do hospital, construída a partir da articulação de diversas lideranças, entre elas Velomar Rios, Roselma Lucchese e o deputado José Nelto, permitiu salvar o empreendimento. Hoje, a população celebra a existência de um hospital universitário que se tornou realidade.
Mas há um aspecto dessa história que raramente é lembrado. Adib Elias não era apenas o prefeito que construía um hospital. Era também um político que havia feito uma escolha difícil. Ao apoiar Ronaldo Caiado contra Daniel Vilela, presidente de seu próprio partido, rompeu pontes, enfrentou resistências e acabou pagando um alto preço político. Foi expulso do MDB por uma decisão que considerava questão de lealdade e convicção.
Por isso permanece uma indagação que o tempo ainda não respondeu de forma satisfatória. Se houve tamanho compromisso político, por que o Estado não assumiu o hospital da forma inicialmente planejada? O que mudou? O que impediu a concretização daquele projeto?
Não se trata de procurar culpados nem de reescrever a história. Trata-se apenas de compreender um episódio que marcou profundamente a vida pública de Catalão, porque o prédio foi construído, o sonho existiu, o sofrimento também. Mas as razões que impediram sua realização plena continuam envoltas em um silêncio que a cidade tem o direito de questionar.
Reconhecer esse desfecho não diminui ninguém. Não reduz o papel de Adib na construção da obra. Não apaga o esforço dos que vieram depois para garantir sua sobrevivência. A história é grande demais para caber em versões simplificadas.
A verdade não é inimiga de ninguém. Pelo contrário. É ela que permite separar a paixão dos fatos, a propaganda da realidade e os gritos da história.
Os homens passam. Os cargos passam. As disputas passam. Mas os fatos permanecem. E, cedo ou tarde, é sempre a eles que recorremos para compreender o que realmente aconteceu.
