Luiz Carlos Bordoni
A política brasileira tem uma fauna rica. Há tucanos, jaguares, leões de palanque e até algumas raposas experientes. Mas poucos animais se adaptam tão bem às circunstâncias quanto os camaleões. Nesta semana, o senador Flávio Bolsonaro ofereceu mais um exemplo dessa rara habilidade.
Em evento realizado em São Paulo, o parlamentar saiu em defesa do Bolsa Família, afirmou que existe preconceito contra os beneficiários do programa e prometeu, caso chegue à Presidência da República, manter e até aperfeiçoar o benefício. Segundo ele, muitos trabalhadores informais têm receio de buscar empregos formais por medo de perder a renda garantida pelo programa.
O discurso contrasta com posições assumidas no passado. Em 2006, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio criticava o Bolsa Família, afirmando que o benefício estimulava famílias a terem mais filhos mesmo sem condições de criá-los adequadamente. Já Jair Bolsonaro, durante anos como deputado federal, também atacou o programa, chegando a chamá-lo de “Bolsa Farelo” e atribuindo a ele parte da força eleitoral do PT.
Agora, o programa criado nos governos petistas deixa de ser alvo de críticas e passa a ser tratado como um direito adquirido dos brasileiros. A mudança não é exclusividade de um partido ou de uma família política. Ela acontece com frequência em Brasília. Políticos que ontem condenavam determinados programas descobrem hoje suas virtudes. Outros que antes os exaltavam passam a apontar defeitos. O poder, afinal, tem suas metamorfoses.
O eleitor, diante dessas transformações, fica com a tarefa mais difícil. Não basta ouvir o discurso de hoje. É preciso comparar com o de ontem. Na política, promessas importam. Mas a memória também.
Diante de tantas mudanças de pele, resta ao cidadão escolher qual verbo conjugar diante dos candidatos: crer, acreditar ou simplesmente conferir.
