Durante muito tempo, o frio foi considerado o grande desafio climático da Europa. Hoje, o continente enfrenta um inimigo inesperado: o calor extremo. A França anunciou neste domingo (28) que a onda de calor que atingiu o país provocou cerca de mil mortes acima do esperado em apenas alguns dias. As autoridades de saúde alertam que o número ainda é preliminar e deverá aumentar à medida que forem contabilizados os óbitos ocorridos em residências e casas de repouso.
A maior parte das vítimas tinha mais de 65 anos, justamente a parcela da população mais vulnerável às altas temperaturas. Mas os efeitos do calor não se restringiram aos idosos. Hospitais registraram aumento expressivo nos atendimentos por desidratação, insolação e problemas cardiovasculares, enquanto o governo francês adverte que as consequências para a saúde podem continuar aparecendo até dez dias após o fim da onda de calor.
O fenômeno não atingiu apenas a França. Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e outros países europeus enfrentaram temperaturas superiores a 40 graus, com impactos sobre o fornecimento de energia, danos em rodovias e ferrovias, prejuízos à agricultura e sobrecarga dos serviços de emergência. Cientistas classificam o episódio como a pior onda de calor já registrada no continente e lembram que a Europa aquece em ritmo superior à média global.
A tragédia reforça um alerta que deixou de ser previsão para se tornar realidade. As mudanças climáticas já não aparecem apenas em gráficos ou relatórios científicos. Elas entram pelas portas dos hospitais, interrompem serviços públicos, afetam a economia e, sobretudo, cobram vidas humanas.
O planeta parece viver uma inversão de papéis. Regiões acostumadas ao frio agora enfrentam temperaturas sufocantes, enquanto eventos extremos se tornam mais frequentes em praticamente todos os continentes. A pergunta já não é mais se o clima está mudando. A pergunta é se governos e sociedades conseguirão adaptar suas cidades, seus sistemas de saúde e sua infraestrutura à velocidade dessas transformações.
A natureza está enviando sinais cada vez mais claros. Ignorá-los pode custar muito mais do que recordes de temperatura. Pode custar vidas. (LCB)
