O ponto de partida precisa ser claro: usar um ato isolado para alimentar hostilidade religiosa é um erro — e um erro perigoso.
O episódio envolvendo um soldado das Forças de Defesa de Israel é, por si só, grave e lamentável. Não há relativização possível quando um símbolo religioso é atacado, sobretudo em um contexto já tensionado como o sul do Líbano. É uma atitude irresponsável, que fere valores básicos de respeito e convivência entre culturas e religiões.
Mas há um segundo risco, talvez ainda maior: o de transformar um ato individual em combustível para o preconceito coletivo. Em tempos de redes sociais e polarização, episódios como esse são rapidamente instrumentalizados para reforçar narrativas mais amplas e muitas vezes distorcidas.
É nesse ponto que entra um cuidado essencial. O crescimento do sentimento antissionista, quando ultrapassa o campo político e se mistura com generalizações religiosas, pode facilmente escorregar para o antissemitismo, algo historicamente devastador. Criticar ações de um Estado ou de seus agentes é legítimo. Transferir essa crítica para um povo inteiro ou para uma fé, não.
Há ainda um elemento sensível: entre cristãos mais tradicionais, persiste, em alguns círculos, a leitura histórica de que os judeus foram responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Essa visão, além de teologicamente superada em grande parte do mundo cristão contemporâneo, já serviu — ao longo da história — como justificativa para perseguições injustificáveis.
Por isso, episódios como este exigem dupla responsabilidade: das autoridades, em investigar e punir com rigor, e da sociedade, em não transformar indignação em preconceito.
O que se espera é que a resposta institucional seja firme, como já sinalizado pelas notas do exército israelense, e que o fato não seja usado como pretexto para reacender divisões religiosas que a própria história já mostrou onde podem levar. Em momentos assim, a lucidez é mais necessária do que a indignação em estado bruto. (LCB)
Jesus Cristo e a marreta do soldado judeu
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