O escorregão da Globo

Não basta ao jornalismo ser independente. É preciso também parecer independente. A direção da TV Globo esqueceu essa lição ao receber Flávio Bolsonaro para um almoço, na sexta-feira (16), justamente no dia de sua entrevista à emissora. Lula, entrevistado na véspera, não recebeu o mesmo tratamento. Foi um gesto imprudente, especialmente em plena disputa presidencial.


A Globo explicou que o encontro foi institucional, sem a participação de jornalistas, e que receberia Lula, caso ele solicitasse. Mas a questão não é o cardápio e nem o assunto da conversa. É a imagem transmitida ao público. Em uma eleição tão polarizada, a direção de uma emissora desse porte não deveria oferecer motivos para suspeitas de preferência política. Melhor teria sido não receber nenhum dos candidatos.


Salvando a casa, diante das câmeras, Renata Lo Prete demonstrou independência. Questionou Flávio, insistiu nas perguntas e cobrou explicações. Não transformou a entrevista em conversa de salão. Na minha avaliação, a jornalista preservou a credibilidade que os dirigentes haviam colocado em risco nos bastidores.


Não afirmo que tenha ocorrido favorecimento político, mas considero que houve uma falha ética de prudência e de percepção pública. A direção da Globo escorregou. Renata Lo Prete manteve-se de pé. Fica a lição: a credibilidade do jornalismo não se protege apenas diante das câmeras. Também se preserva longe delas. (Luiz Carlos Bordoni)

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