A política já foi química. Tinha ideologia, afinidades, simpatias e até algumas reações previsíveis. Hoje virou física. E física das partículas. Qualquer movimento provoca efeitos difíceis de calcular.
Donald Trump resolveu entrar novamente na equação brasileira. Durante entrevista, afirmou que a situação política do Brasil se tornou perigosa e disse ter tomado conhecimento da prisão de “Bolsonaro Jr.”. O detalhe é que confundiu os irmãos Bolsonaro, misturando Eduardo com Flávio, senador e pré-candidato à Presidência da República.
Do lado brasileiro, Lula adotou tom mais cauteloso. Disse que não pediu reunião bilateral com Trump para discutir tarifas porque as negociações estão em andamento. Mas revelou surpresa ao ver o governo americano classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo Lula, em encontro anterior na Casa Branca, havia apresentado um documento propondo cooperação no combate ao crime organizado.
O episódio mostra como as relações entre Brasília e Washington entraram numa zona de volatilidade. Uma declaração aqui produz repercussões ali. Uma decisão lá gera consequências cá. Como nos laboratórios, qualquer alteração na temperatura política pode mudar o resultado da experiência.
A diferença é que, neste caso, os cientistas são presidentes, os tubos de ensaio são os países e os efeitos recaem sobre milhões de pessoas.
A química ficou para trás. Agora é física. E das mais voláteis.
Trump Laboratory
A política internacional anda tão estranha que deixou de ser Ciência Política e virou aula de Química.
Trump entrou no laboratório, colocou Lula dentro de um béquer e começou a aquecer a solução. O resultado foi uma reação inesperada. Surgiram tarifas, PCC, Comando Vermelho, Bolsonaro, Eduardo, Flávio e até confusão de nomes.
Os cientistas ainda tentam entender o fenômeno.
O problema é que a substância política atual é altamente volátil. Na Química, são chamadas de voláteis as substâncias que evaporam com facilidade quando submetidas ao calor. Na política, o conceito é parecido: uma declaração atravessa a fronteira, muda de estado e vira crise diplomática.
Trump aumenta a temperatura. Lula mexe o conteúdo com uma vareta de vidro. Assessores observam a experiência à distância. Jornalistas anotam tudo. E os mercados financeiros, como sempre, ficam olhando para o termômetro.
O risco é a mistura transbordar do béquer. Em laboratório, isso gera fumaça. Na política, gera manchetes. (LCB)