A suspensão temporária da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan já começou a alimentar discursos de quem desconfia da ciência e das vacinas. É um erro transformar um procedimento de segurança em motivo para espalhar medo.
O Ministério da Saúde decidiu interromper preventivamente a aplicação do imunizante após o registro de 42 reações graves entre cerca de 500 mil doses aplicadas. Isso representa aproximadamente 0,008% dos vacinados. Além disso, duas mortes estão sendo investigadas para verificar se existe relação direta com a vacina ou se os casos tiveram outras causas.
A primeira informação importante é que suspensão não significa condenação. Significa justamente o contrário: que o sistema de vigilância está funcionando. Em qualquer país sério, medicamentos e vacinas continuam sendo monitorados mesmo depois da aprovação. Quando surge um sinal inesperado, a investigação é aberta imediatamente.
Foi exatamente isso que aconteceu. Alguns sintomas graves observados não haviam aparecido nos estudos clínicos realizados anteriormente com milhares de voluntários. Diante disso, a aplicação foi interrompida para análise detalhada dos dados.
A segunda informação importante é que a vacina japonesa Qdenga, utilizada normalmente pelo SUS, não foi afetada pela medida e continua sendo aplicada conforme as orientações do Ministério da Saúde.
Também é preciso lembrar que a dengue continua sendo uma ameaça real. Todos os anos, milhares de brasileiros são hospitalizados e centenas morrem em consequência da doença. A vacina é uma ferramenta importante, mas não substitui o combate ao mosquito, a eliminação de criadouros e os cuidados preventivos.
A ciência não é um sistema de certezas absolutas. Ela funciona observando, testando, corrigindo e aperfeiçoando. Quando uma vacina é suspensa para investigação, não estamos diante de um fracasso da ciência, mas de uma demonstração de que os mecanismos de controle estão operando como devem.
Neste momento, o mais sensato é aguardar a conclusão das análises técnicas. Nem alarmismo, nem negacionismo. Informação de qualidade, responsabilidade e confiança nos órgãos de saúde são os melhores remédios contra a desinformação.
Porque tão perigoso quanto um vírus é transformar a dúvida em boato e a investigação em sentença. (LCB)