Primeiro de abril. No calendário, o chamado Dia da Mentira. No Brasil, convenhamos, é quase um feriado permanente — aqueles que não se decretam, mas se praticam. Antigamente, a data servia para pequenas traquinagens: trocar o açúcar pelo sal, inventar uma notícia inofensiva, arrancar um riso. Hoje, evoluímos. A mentira deixou de ser brincadeira e virou método. Profissionalizou-se. Ganhou gabinete, assessor, nota oficial — e, às vezes, até selo de “verdade institucional”.
Vivemos um tempo curioso: nunca se falou tanto em transparência, e nunca foi tão difícil enxergar o que realmente acontece. Os discursos são cristalinos — tão claros que chegam a ofuscar. Explicam tudo, justificam tudo, e no fim não dizem nada. É a pedagogia da fumaça: você vê o movimento, mas não encontra o fogo.
Entre governantes e governados, estabeleceu-se uma relação quase teatral. De um lado, promessas que já nascem com prazo de validade vencido. Do outro, uma plateia que oscila entre a descrença e o cansaço. Ninguém se surpreende mais — o que, talvez, seja o maior triunfo da mentira: deixar de chocar.
E há o tempero principal desse banquete indigesto: a corrupção. Ela não chega fazendo barulho. Vem silenciosa, elegante até, vestida de “interesse público”, de “urgência administrativa”, de “arranjo político necessário”. Quando percebemos, já está à mesa — e, pior, presidindo o jantar.
O mais fascinante — se é que a palavra cabe — é a criatividade. Há mentiras sofisticadas, quase artísticas. Narrativas tão bem construídas que fariam inveja a bons romancistas. A diferença é que, na ficção, sabemos que é ficção. Aqui, vendem-nos fantasia com nota fiscal.
E seguimos. O cidadão comum aprende a traduzir discursos, a desconfiar de números redondos demais, de obras inauguradas mais de uma vez, de soluções milagrosas que nunca chegam. Desenvolvemos um sexto sentido: quando a promessa é perfeita, a realidade costuma ser o oposto.
Talvez o problema não seja a existência da mentira — ela sempre existiu. O problema é quando ela deixa de ser exceção e passa a ser regra de funcionamento. Quando a verdade vira detalhe, quase um acessório incômodo no roteiro.
No fim das contas, o primeiro de abril perdeu a graça. Não porque deixamos de rir, mas porque a piada ficou séria demais.
E o Brasil, esse país que sabe rir de si mesmo como poucos, começa a perceber que, nessa história toda, há algo que já não tem a menor graça: o fato de que estamos sendo enganados — e já não sabemos mais por quem, nem até quando. LCB
Coisas do Brasil. Todo dia é 1o. de abril
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