Na política brasileira, onde já vimos de tudo (até candidato que promete o que não entende), surge agora uma figura curiosa: o “quase-Lula” que não quer ser Lula. Ou melhor, que diz não querer. O cardiologista e vereador Célio de Morais, de Jaboticabal (SP), decidiu que está na hora de trocar o estetoscópio por Brasília e, de quebra, usar (sem usar) a própria cara como plataforma eleitoral.
Conhecido entre aliados como “Lula do Bem”, ele garante que nunca explorou a semelhança com Luiz Inácio Lula da Silva. Mas também não nega que a coincidência ajuda. Afinal, desde 1982, segundo ele, já era confundido em comícios. Ou seja: são mais de 40 anos sendo “Lula sem ser”, uma espécie de versão alternativa que caiu no multiverso político errado.
A entrada na política, aliás, não foi bem uma escolha. Foi um “aceitei entrar”, como quem aceita um plantão de última hora. Aos 70 anos, depois de décadas atendendo pacientes, decidiu que talvez fosse mais produtivo tratar o Brasil, ainda que, na entrevista à VEJA, tenha evitado diagnósticos mais objetivos sobre temas como pandemia e vacinação. Médico cauteloso, diria alguém.
Na narrativa, há também espaço para uma trajetória digna de roteiro: empresário que faliu, manifestações desde 2013, encontros com celebridades e até uma visita ao Papa João Paulo II. Tudo isso costurado por uma convicção: a de que nunca usou a própria imagem como marketing. O detalhe é que, no meio do caminho, virou meme, daqueles que a internet não larga.
Entre respostas que vão e voltam, conceitos reinterpretados e algumas contradições, o “Lula do Bem” acaba revelando mais do que talvez pretendesse. No fim das contas, o personagem parece viver um dilema curioso: quanto mais tenta se afastar do original, mais depende dele para existir politicamente.
E assim segue a política brasileira, onde até o espelho pode virar cabo eleitoral.
O “Lula do Bem” que não quer ser Lula — mas também não larga o espelho
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